Bonocô: o vale sagrado que virou avenida

Todo mundo em Salvador já atravessou o Bonocô. Seja de carro, de ônibus, de moto ou no metrô, é difícil viver a cidade sem passar — e reclamar — por essa avenida que parece ligar tudo a tudo. Mas por trás do asfalto quente e dos engarrafamentos diários, existe um vale carregado de memória, espiritualidade e resistência.

Antes de ser cortado pelo concreto, o lugar era conhecido como Baixa do Bonocô — ou melhor, Gunocô, uma corruptela de Igunnukô. Quem conta isso é o professor Waldeloir Rego, referência nos estudos sobre o candomblé na Bahia. Segundo ele, naquela baixada os negros se reuniam à meia-noite para celebrar Baba Igunnukô, um orixá de origem nigeriana, considerado um Egungun — espírito ancestral reverenciado nas religiões afro-brasileiras.

Bonocô com vista sentido vale do Camarajipe – atual Av. ACM -, 1978. Foto: Biblioteca da FMLF.

Os rituais aconteciam em torno de uma árvore sagrada. Ali, distribuía-se egbó, velas, ekó, e o povo cantava e dançava ao som dos atabaques. Quando o orixá chegava, diziam: “Essó, essó Baba” — calma, pai. Esse ponto de axé acabou batizando não só o vale, como o modo pelo qual a cidade até hoje se refere à famosa avenida: Bonocô.

Decreto Municipal n° 3.869 de 29 de março de 1970, sobre nomeação da Av. Mário Leal Ferreira. Foto: Biblioteca da FMLF.

Mas o nome oficial, registrado em decreto de 1970, é outro. A avenida se chama Mário Leal Ferreira, uma homenagem ao engenheiro e urbanista baiano responsável, nos anos 1940, pelo primeiro plano de urbanização da cidade — o EPUCS. Foi ele quem desenhou a Salvador moderna que conhecemos hoje. Ironicamente, essa modernização também afastou terreiros e comunidades negras dos seus espaços centrais, como aconteceu no próprio Bonocô, onde um terreiro teve que ser removido para a construção da avenida.

Levantamento e projeto do Vale do Bonocô. Foto: Biblioteca da FMLF.

Com aproximadamente 4 km de extensão, a via conecta pontos-chave da cidade: do Acesso Norte e BR-324 até o Vale de Nazaré. Foi construída entre o fim dos anos 1960 e início dos 70, quando o lugar ainda era pouco povoado. Mas não demorou para virar artéria vital da cidade — e também um termômetro das suas dores: trânsito pesado, transporte público, desigualdade entre bairros.

Apesar do nome oficial, ninguém chama de Mário Leal Ferreira. É Bonocô, com sotaque, com memória, com pertencimento. O nome popular resiste porque carrega mais do que uma placa: carrega a história dos que vieram antes, dos que dançaram de madrugada pedindo respostas aos ancestrais. Uma memória viva, que pulsa por baixo do asfalto.

Bonocô visto de Campinas de Brotas sentido Centro,1978. Foto: Biblioteca da FMLF.

Agora, na próxima vez que você estiver preso no engarrafamento do Bonocô, experimente pensar: e se, por trás dessa buzina toda, ainda ecoasse um toque de tambor? Se no meio do corre, o orixá ainda dançasse, pedindo calma? Essó, essó Baba.

Pedro Oliveira
@pedrolivr_

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[Textos inspirado por pesquisas do Trabalho de Conclusão de Curso de Washington Melo, ‘Vestígios de Memória da Avenida Mario Leal Ferreira (Bonocô) contidos em documentos arquivísticos’; e pelo livro ‘Histórias de Salvador nos nomes de suas ruas’, de Luiz Eduardo Dorea (Edufba). Com fotos do TCC citado e do perfil Amo a História de Salvador – By Louti Bahia].

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