De Momo a São João: quando Salvador troca a fantasia pela camisa xadrez
Samba Junino no Garcia. Foto: Raul Spinassé/ Folhapress.

Em Salvador, a folia nunca para — ela apenas muda de ritmo, de sotaque e de roupa. Mal o trio elétrico desliga seus alto-falantes, os confetes do circuito Barra-Ondina ainda flutuam no ar e o corpo ainda ecoa o frevo e o pagodão, já tem gente pensando no chapéu de palha, no arrasta-pé e no milho assado. A verdade é que, para o soteropolitano, o ciclo junino começa quando o carnaval ainda mal esfriou.

Não é só uma questão de calendário: é sensorial. Vem março e, com ele, o Dia de São José (19/03), que em muitas culturas nordestinas é o marco não oficial de início dos preparativos juninos. É quando se diz: “Agora sim, o São João vem aí”. A cidade começa a esfriar sutilmente — uma brisa a mais no fim da tarde, um céu mais limpo, uma saudade do clima de junho que chega de mansinho. Salvador, com sua personalidade festiva, se transforma mais uma vez: do calor elétrico do carnaval para o calor afetivo do São João.

O axé dá lugar ao xote. Foto: Rafael Martins/ Folhapress.

E que festa é essa! A festa do milho, da fogueira, da família, das lembranças da escola onde dançamos quadrilha pela primeira vez, das comidas que aquecem o estômago e o coração. É festa de tradição, de herança e de pertencimento. A música muda o compasso: o axé dá lugar ao xote, o samba duro se mistura ao forró pé de serra, e as ruas ganham novos sons — sanfonas, zabumbas, triângulos e pandeiros.

Nos bairros populares, a movimentação começa cedo. Arrastões de samba junino tomam conta das ruas de Brotas, Garcia, Federação e adjacências. Os grupos culturais de resistência organizam ensaios, eventos, pequenas festas que mantêm viva a alma do São João de raiz —aquele que mistura o batuque afro com a sanfona nordestina, transformando Salvador em uma capital cada vez mais híbrida, plural e afirmativa.

Nos últimos anos, Salvador viu também um crescimento importante das festas juninas gratuitas, bem organizadas, com artistas renomados, cenografia caprichada, muito forró e todas as suas derivações e diálogos com outros estilos musicais. Quem gosta de dançar agarradinho, ou iniciar a resenha com os amigos em uma quadrilha improvisada, encontra hoje uma cidade que abraça o São João com força — seja como reencontro com a tradição, seja como celebração urbana e popular.

Léo Santana no São João da Bahia. Foto: reprodução/ Sufotur.

E a pergunta inevitável surge nos papos de bar, nos grupos de WhatsApp e nas filas da rodoviária: Você é do time do carnaval ou do São João?

Vai pular a fogueira no interior ou vai curtir a programação da capital?

Já está se preparando para o engarrafamento na BR ou as filas intermináveis na rodoviária?

Já juntou os amigos para alugar uma casa em Amargosa, Senhor do Bonfim ou Ibicuí e passar por possíveis perrengues no friozinho do interior?

Foto: Raul Spinassé/ Folhapress.

Seja qual for sua escolha, uma coisa é certa: nada tira o ânimo de quem vive o São João como afirmação de identidade e de afeto. Para o nordestino, é mais que uma festa — é um sentimento de pertencimento. É comunhão, reencontro e resistência. É o abraço coletivo em torno da fogueira, é gostinho bom do licor, é a lembrança de uma infância embalada por trios de forró e bandeirolas coloridas.

Viva São João! Viva a Bahia que nunca para de festejar!

Mariana Silva
@marianasilvacantora

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