No coração do Carmo, entre igrejas e becos que guardam séculos, um escultor moldou a dor e a fé em madeira, músculo e sangue. Era Francisco das Chagas. O Cabra. Negro, autodidata, invisível à sua época. Inesquecível para quem viu suas obras desde então.

Pouco se sabe da vida de Francisco das Chagas, traço típico de como a história não tratou dos artistas negros que construíram o Brasil colonial. O que se sabe é que viveu e trabalhou em Salvador na segunda metade do século XVIII. Que era autodidata, e, provavelmente, alforriado. Que foi contratado, em 1758, pela Ordem Terceira do Carmo para esculpir três imagens de Cristo. E que o que sobreviveu de sua obra o consagra como um dos maiores nomes do barroco brasileiro. Uma de suas esculturas – talvez a mais lembrada – é o Cristo Atado à Coluna. O corpo tenso, o olhar elevado e a dor aguda transformam as referências de quem encontra esse Cristo ao vivo.

Conhecido como o Cabra, Francisco das Chagas lapidou em cedro o que só grandes artistas conseguem expressar: contradições humanas e estados espirituais, arqueologia da violência e política do corpo. Suas obras impactam pela precisão anatômica — músculos, ossos, chagas — e pelas expressões faciais. O Cristo que se agita preso à coluna está em suspensão entre o humano e o divino. Sofre, mas não se rende. Está preso, mas seu corpo se move para o alto. Seu rosto é dor e compaixão. O sofrimento, a prisão e a dor seriam retomados pela banda Pavilhão 9, que colocou a escultura do Cabra na capa do disco ‘Se Deus Vier, Que Venha Armado’.

A comparação com Aleijadinho é inevitável. Para estudiosos como Aníbal Mattos, o papel de Chagas para a escultura baiana é análogo ao do mestre mineiro para o barroco das Gerais. Já Mário de Andrade o vê como precursor da “imposição do mulato” nas artes do século XVIII, índice de afirmação cultural que incluiria figuras como Mestre Valentim e o próprio Aleijadinho.
No entanto, diferentemente desses nomes mais celebrados, Chagas nunca teve o reconhecimento que sua obra merecia — nem em vida, nem depois. Era alvo de desprezo por parte da elite da época, embora lhe encomendassem imagens sacras que hoje integram o patrimônio artístico da cidade. Salvador lhe deve, além de uma reverência, mais pesquisas e mais atenção.
Entre suas peças mais conhecidas estão, além do Cristo Atado à Coluna, o Senhor Morto — uma impressionante escultura em madeira com rubis incrustados nas chagas —, Cristo Sentado na Pedra Fria, Nossa Senhora com o Menino Jesus nos Braços e o Senhor dos Passos, cuja história inclui lendas de milagres e viagens interrompidas por “desígnios divinos”.
Francisco das Chagas é um dos pontos de partida possíveis para entender a escultura sacra da Bahia. E para entender como os artistas negros construíram nosso imaginário, independentemente da sua presença nos registros oficiais.

Se estiver pelo Centro Histórico, faça um desvio até a Igreja da Ordem Terceira do Carmo. Ali, nas sombras barrocas de uma sacristia ou de uma capela, você poderá encontrar algo raro: um corpo talhado em madeira que respira.
Repare bem.
Pedro Oliveira
@pedrolivr_



