
Nesta quinta-feira (2), Salvador celebra o centenário de nascimento de uma das maiores referências espirituais, intelectuais e culturais da Bahia: Mãe Stella de Oxóssi. Nascida Maria Stella de Azevedo Santos, no Pelourinho, em 1925, ela construiu uma trajetória marcante que atravessou gerações e fronteiras, firmando-se como uma das maiores vozes em defesa do candomblé e da cultura afro-brasileira.
Iniciada ainda adolescente no Ilê Axé Opô Afonjá, pelas mãos de Mãe Senhora, Mãe Stella tornou-se ialorixá do terreiro em 1976 e, desde então, foi uma das mais firmes defensoras da identidade religiosa dos orixás, combatendo o sincretismo e reafirmando o candomblé como uma religião com seus próprios fundamentos e símbolos. Sua liderança firme e serena fez do Afonjá um polo de espiritualidade e resistência, sem nunca perder o vínculo com as raízes ancestrais africanas.

Além de religiosa, Mãe Stella também foi enfermeira por 30 anos, escritora com uma dezena de livros publicados e a primeira ialorixá a integrar a Academia de Letras da Bahia. Criou o Museu Ilê Ohum Lailai dentro do próprio terreiro, reforçando seu compromisso com a memória e a preservação da história do povo de axé. Seu pensamento livre, aliado à clareza com que se expressava, tornou-se referência tanto dentro quanto fora dos terreiros.

A celebração dos 100 anos de Mãe Stella é também uma celebração da força feminina negra, da sabedoria ancestral e da valorização das religiões de matriz africana. Sua presença física se foi em 2018, mas sua influência segue viva nos cânticos, nos toques, nos livros e no pensamento de quem luta por respeito, dignidade e verdade.
Mãe Stella de Oxóssi permanece como um símbolo de dignidade, coragem e sabedoria. No dia em que seu orí completaria um século, Salvador reverencia não apenas uma sacerdotisa, mas uma mulher que se fez história — e que continuará inspirando o futuro.



