
Na noite de ontem, Salvador foi palco de um encontro raro e profundamente emocionante com a história viva, e atuante, do teatro e do cinema brasileiro. A estreia de “Não me entrego, não”, monólogo protagonizado por Othon Bastos (o seu primeiro!), não foi apenas um espetáculo teatral — foi uma declaração de amor à arte, à cultura, à memória e à resistência.
Aos 91 anos, Othon sobe ao palco com a mesma força que o fez atravessar décadas de cena. Sua voz firme, seu olhar vibrante e sua entrega total ao texto autobiográfico — em diálogo constante com sua “Memória” — constroem uma narrativa que ultrapassa os limites corporais de uma mera representação. É como se cada palavra proferida ecoasse não apenas sua história pessoal, mas o próprio percurso de um país que insiste em se reinventar pela arte. Mais do que isso. Ao ver Othon Bastos subir no palco, vemos em cada fibra de seus músculos, em cada poro de sua pele e respiração, a essência do teatro, do ser personagem para ecoar grandes verdades, do ser ATOR.
Desenrolando o seu texto-vida em cena, Othon revisita memórias, personagens e passagens que se confundem com a própria história do teatro e cinema do Brasil (e pitadas de Europa). De Tucano (onde nasceu) ao Rio de Janeiro, de Londres a Salvador e depois São Paulo, a peça costura episódios de sua trajetória com momentos chave do cinema novo, do teatro político e dos movimentos culturais que, desde a ditadura passando pela redemocratização do Brasil, até os tempos atuais, têm sido fundamentais para forjar consciência, provocar reflexão e alimentar esperanças.
Neste viagem, nos encontramos com poetas, escritores, dramaturgos, atores… Grandiosos, mas imerecidamente pouco lembrados, como Gianfrancesco Guarnieri, Glauber Rocha, Eros Martim Gonçalves, Federico García Lorca, Yoná Magalhães, Shakespeare e outras visitas que passam pelo tablado e provocam todo tipo de emoções na plateia. Acompanhamos também grandes momentos de Salvador, como o período de efervescência cultural da Universidade Federal da Bahia nos anos 60 e a criação do Teatro Vila Velha, em 64.

Mais do que reverenciar sua própria vida, Othon Bastos nos lembra que o teatro e o cinema não são apenas entretenimento — são ferramentas de formação, de transformação e de enfrentamento. Através deles, gerações inteiras aprenderam a questionar, a sonhar, a resistir. E se hoje somos capazes de enxergar além dos discursos prontos e das narrativas oficiais, muito se deve à coragem de artistas como ele, que jamais se curvaram ao silêncio imposto por nenhuma forma de opressão.
Ao final, fica impossível não se emocionar. “Não me entrego, não” é mais do que um título — é um manifesto. Uma afirmação de que a arte é, e sempre será, um ato de resistência. De que envelhecer no palco, de cabeça erguida, é um gesto político, poético e profundamente revolucionário.
Fica o desejo de que este espetáculo ecoe por muito tempo. Que inspire novas gerações de artistas e espectadores a compreenderem que, enquanto houver voz, haverá teatro. Enquanto houver olhar, haverá cinema. Enquanto houver arte, haverá esperança.
“Não me entrego, não” está em cartaz no Teatro Sesc Casa do Comércio até domingo (25). Feliz ou infelizmente com os ingressos esgotados.
Brena Silva Ferreira
@brenasferreira



