
Antes do Sete de Setembro; antes do grito no Ipiranga; antes da coroação de Dom Pedro. A Independência começou aqui.
Foi no 2 de Julho de 1823 que as tropas portuguesas deixaram Salvador de vez, após meses de batalha nas ruas, nos fortes, nos quartéis e nas roças da cidade. Quem ficou? Os baianos. Os esfarrapados. Os caboclos, os negros, as mulheres, os estudantes, os artesãos, os militares e os escravizados que lutaram pela liberdade, mas nem sempre a receberam de volta. Quem ocupou as ruas não foram só soldados, mas a cidade inteira.
Durante décadas, Salvador parou para lembrar. Montava alegorias com serpentes vencidas, mastros patrióticos, bandeiras, festas. Saía da Lapinha, passava pela Soledade, parava no Terreiro, ocupava o centro com carros decorados e vivas ao Brasil que começava aqui, do lado de cá do Atlântico. Um país que não nascia de cima para baixo, mas de baixo para cima, no meio do povo, com cheiro de café, fumo e folha de croton.
O 2 de Julho foi — e segue sendo — o feriado que melhor nos explica. O mais baiano dos dias, o mais baiano dos símbolos. Quando o Brasil se esquece, a Bahia lembra. A festa é feita de memória, território e reexistência. É feita da ideia de que a Independência do Brasil, por aqui, foi negra, indígena, popular e conquistada com o corpo na rua.
Em tempos de apagamentos, a cidade insiste: o Brasil começou na Bahia. E Salvador, como sempre – ao lado de Cachoeira e Itaparica -, saiu na frente.



