
Num mundo que se acredita extremamente textual e, mais recentemente, imagético, a dança às vezes é subestimada não só como arte, mas como linguagem primeira do corpo. Nossa primeira dança é a dois: embalados dentro do útero materno, sentindo o balanço dos passos e o som das batidas do coração da mãe. Não à toa, os bebês saem da barriga e só querem colo, só querem aquele swing que nos lembra aqui fora que antes o nosso mundo era completo.
As crianças não têm a timidez do “não vou dançar porque é feio”, elas só vão, meio desajeitadas e igualmente graciosas, dançando e batendo palmas, firmando os pés no chão em seu ritmo próprio que, às vezes, coincide com a música.
Em Salvador, especialmente, saímos para a vida e a dança continua fazendo parte dos nossos passos, até de quem não dança. A subida das ladeiras, o caminhar das mulheres vestidas de branco com um fardo na cabeça, os pulos acrobáticos de crianças na água, todos os gestuais mais simples e também os mais complexos e – porque não – sagrados, são marcados por um ritmo interno que move o corpo a escrever histórias, percursos, trabalhos e lazeres no palco vivo da cidade.
Salvador é dançante. Criamos danças ao sabor dos mais variados ritmos que nascem das nossas mentes mais inventivas. No samba-reggae, cadenciado. No pagodão, estiloso, groovado. No samba, miudinho, a dança forma o som e os pés são o reco-reco. No axé, é coreografia, mãos pra cima, joga e joga, mas também é liberdade do corpo solto na pipoca. Na luta, se liga! É capoeira, camará!

Os próprios deuses da diáspora se manifestam escrevivendo suas histórias através da corporificação dos seus passos, gestos, narrativas e mitos. Se Nietzsche não acredita em um deus que não dança, o que ele diria das matrizes que formam a Bahia? Reverenciamos um panteão de deuses que dançam e perpetuam os milagres da resistência ao longo dos séculos.

Viver Salvador é ser convidado todos os dias a dançar. Salvador é a terra do Balé Folclórico da Bahia, das Deusas do Ébano, das gerações e gerações de crias da FUNCEB, do É o Tchan – a maior febre coreográfica que o país já viu – e de Xanddy, que mostrou a todo mundo que homem rebolando é, nas palavras de Caetano, a “coisa mais linda do carnaval”. Mesmo que um ou outro ache que não sabe dançar, é impossível não se ver impelido pelo ritmo, mexendo a cabeça, balançando os pés, contando as batidas com o coração. O soteropolitano ginga.
Hoje é o Dia Internacional da Dança, mas em Salvador poderia ser o dia de todas as artes amalgamadas. Porque aqui a gente pensa, escreve, compõe, atua, espetaculariza com um corpo que DANÇA, para a vida, para o axé, para e pela cidade.
Brena Silva Ferreira
@brenasferreira


