Túnel Américo Simas: a cidade escavada no tempo

Salvador é feita de altos e baixos — geograficamente, historicamente, simbolicamente. E geologicamente, cortada por uma encosta que separa a Cidade Alta da Cidade Baixa. Divisão que, durante séculos, foi vencida apenas pelas ladeiras – estreitas, íngremes, mais ou menos misericordiosas. Água Brusca, Preguiça, Montanha… nomes que ainda fazem parte do nosso vocabulário, mas que já não sustentam, sozinhos, a mobilidade entre os dois planos da capital.

Construção do trevo de acesso ao Túnel Américo Simas. Foto: Sérgio Jorge.

Foi justamente da necessidade de facilitar a circulação entre essas duas partes da cidade — especialmente com o crescimento do número de veículos, no século XX — que surgiu a ideia de escavar a rocha e criar um túnel. A proposta, aos ouvidos populares, parecia audaciosa, mas não era nova: há registros desde 1858 de sugestões semelhantes. A mais emblemática veio em 1935, durante a Semana de Urbanismo, quando o engenheiro e professor Américo Furtado de Simas, nascido em São Félix, apresentou um projeto detalhado de túnel urbano para Salvador. Seu nome, anos depois, batizaria a obra.

A construção do Túnel Américo Simas começou oficialmente em 1952, na gestão do então prefeito Osvaldo Velloso Gordilho – o mesmo que, anos depois, escreveria o livro ‘O Túnel no Tempo’. Mas o caminho entre a ideia e a realização não foi reto. Foram 15 anos de obras interrompidas por falta de recursos, disputas políticas e prioridades questionáveis. Mesmo com empréstimos vultosos e aumento de impostos, o túnel quase foi abandonado em diversos momentos.

Revista Manchete. Edição 0775, 1967. À direita, abaixo, o prefeito Nelson Oliveira e o governador Lomanto Júnior cortam a faixa de inauguração.

Escavado em rocha granítica, com 282 metros de extensão, 6,20 metros de altura e 18 metros de largura, o túnel foi finalmente inaugurado em 30 de janeiro de 1967. A obra, entregue pela gestão do prefeito Nelson Oliveira com presença do então governador Lomanto Júnior, foi celebrada pela imprensa da época como a abertura do “Túnel do Progresso”. Nos textos que anunciavam a inauguração, não foram feitas referências às mortes provocadas pelo processo conturbado da construção.

Jornal do Brasil, ed. 00079. 06-04-1966.

Além do túnel em si, o projeto incluiu a construção de dois viadutos sobre a Avenida Jiquitaia, o trevo de acesso à Rua J. J. Seabra e o prolongamento da Avenida Vale de Nazaré. Também foram pensados passeios laterais elevados para maior segurança dos pedestres — algo ainda hoje notável na estrutura.

O Américo Simas, que conecta a Avenida Frederico Pontes, na Calçada, à Avenida Presidente Castelo Branco, no Vale de Nazaré, transformou a mobilidade entre os dois níveis da cidade e se tornou parte do cotidiano de milhares de soteropolitanos. Ainda que os problemas persistissem — como o deslizamento de terra em 1971 que interditou temporariamente a via —, o túnel permanece até hoje como a principal ligação subterrânea de Salvador.

Símbolo da persistência, dos percalços e da engenharia urbana soteropolitana, a via também um lembrete de que, para seguir em frente, às vezes é preciso cavar fundo.

Pedro Oliveira
@pedrolivr_

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